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ENTREVISTA
Francisco de Assis Renó
30/07/2008

Itajubá Notícias – No que consiste o projeto ‘1.000 quilômetros na Mantiqueira’?

Dr. Assis – O projeto tem no seu conteúdo a idéia de divulgar o esporte montain-bike. Por que 1.000 quilômetros na Mantiqueira? Porque exatamente a Mantiqueira é uma região muito propícia para este tipo de esporte. Então, ao invés de fazer um percurso em estradas asfaltadas, entre cidades maiores, nós optamos por conhecer e percorrer as pequenas localidades do Sul de Minas e, notadamente, da Serra da Mantiqueira. Não só o Sul de Minas; passamos por dois Estados. Começamos no Estado de São Paulo, viemos para o Estado de Minas Gerais, voltamos para o Estado de São Paulo, tentamos chegar no Estado do Rio de Janeiro, mas não conseguimos, e terminamos o trajeto no Estado de Minas Gerais, sempre dentro da Serra da Mantiqueira.

 

IN – Como surgiu a idéia do projeto?

Dr. Assis – Existem várias ações de aventura, como por exemplo subida de montanhas geladas. Tivemos contato com um atleta que está fazendo a travessia do deserto do Saara; e como a nossa intenção era divulgar as belezas da Serra da Mantiqueira e como ela é apropriada para a atividade de montain-bike nós optamos por fazer esse trajeto de 1.000 quilômetros de montain-bike na Mantiqueira.

 

IN – Foram quantos atletas integrantes dessa aventura? Qual o percurso percorrido?

Dr. Assis – Começamos o percurso com oito atletas e terminamos com três. O percurso exato foi esse: saímos de Bragança Paulista e fomos a Camanducaia; depois Camanducaia a Campos do Jordão; Campos do Jordão a Itajubá; Itajubá a Passa Quatro. Em Passa Quatro, a idéia era chegar a Visconde de Mauá, mas chegamos até as proximidades de Maromba, no Estado do Rio de Janeiro, num bairro chamado Dois Irmãos e tivemos que voltar. Pernoitamos então em Itamonte. Depois mudamos o trajeto: fizemos Itamonte a Alagoa; Alagoa a Aiuruoca; Airuoca a Carvalhos; Carvalhos a Liberdade; Liberdade a Bocaina de Minas; Bocaina de Minas a Lima Duarte (próximo a Juiz de Fora). Neste momento, saímos um pouco do Sul de Minas e entramos na Zona da Mata, que também é Mantiqueira. De Lima Duarte subimos a Serra de Ibitipoca; fomos a Conceição do Ibitipoca. Depois fizemos Conceição do Ibitipoca a Santana do Garambel; Santana do Garambel a Andrelândia; depois Andrelândia, Serranos, Serritina e Baependi. Depois fizemos Caxambu, São Lourenço, Dom Viçoso, Maria da Fé e Itajubá. Na realidade, fomos derrotados pela Mantiqueira.

 

IN – Na sua opinião por que vocês foram ‘derrotados’ pela Mantiqueira?

Dr. Assis Nós subestimamos a Mantiqueira; pretendíamos andar 1.000 quilômetros, mas conseguimos andar 916. Isso se deu por várias circunstâncias. Primeiro pelos defeitos nas bicicletas e também o estado físico das pessoas que estavam participando; chegou num ponto em que a gente estava realmente extenuado. O cansaço era excessivo. Por isso resolvemos encerrar com nove etapas. Na realidade interrompemos a etapa de Passa Quatro a Visconde de Mauá; transformamos em Passa Quatro a Itamonte. Quanto à desistência dos atletas alguns foram por falta de preparo físico, outros por problemas nas bicicletas, e outros até por problemas de ordem pessoal.

 

IN – Existiu algum tipo de preparação prévia para a execução do percurso com os atletas? Como se deu?

Dr. Assis – Existiu todo um planejamento em equipe definindo o percurso. Primeiro identificando os pontos de parada, as estradas por onde a gente iria trafegar. Além disso, a montagem de todo um sistema de apoio dentro do planejamento. Começamos a trabalhar o projeto seis meses antes. Existia também um planejamento sob o ponto de vista pessoal, que incluiria a preparação física de cada um dos participantes, as orientações nutricionais, a avaliação física de cada um dos participantes. Eu passei por uma bateria de exames, orientado pelo Dr. Rodrigo Gonçalves; depois de todos esses exames, tanto exames de sangue, densitometria corporal, ecocardiografia. Isso para não termos qualquer surpresa com relação à saúde de cada um dos integrantes durante o percurso. Tudo isso fez parte do nosso planejamento.

 

IN – Vocês tiveram algum tipo de acompanhamento médico durante o percurso?

Dr. Assis – Não. Nós fizemos uma avaliação anterior; e durante o percurso, na realidade, dentro daquela assistência básica que foi necessária em algumas situações quem fez esse acompanhamento fui eu mesmo.

 

IN – O senhor comentou que tiveram alguns problemas com a manutenção das bicicletas. Como era feita?

Dr. Assis – A gente tinha uma caminhonete de apoio que levava algumas peças, as principais peças. Mas na realidade tivemos que substituir a suspensão em Passa Quatro. Os reparos mais simples, como de freio e pneus, nós fazemos durante o percurso, com material que nós levamos.

 

IN – A Serra da Mantiqueira é conhecida pelo seu relevo íngreme, com muitas montanhas. Diante dessa realidade, qual a maior dificuldade encontrada durante o percurso?

Dr. Assis - É muito bem conhecido hoje o nome Mantiqueira. Mantiqueira significa Serra que chora; é uma região própria de nascentes. E as nascentes são muito mais comuns nas regiões mais altas. A Serra da Mantiqueira é muito rica em nascentes. Eu diria que o som apropriado da Mantiqueira é o som de águas passando em rochas; o som das cachoeiras. E o relevo é realmente o destaque da Mantiqueira. Passamos por estradas em que a média horária ficava em cerca de 4 km, especialmente na região de Itamonte, onde as montanhas existem em muita quantidade; e as estradas que acompanham esse relevo exagerado também são difíceis para o montain-bike. Aí que está o desafio.

 

IN – Como foi a recepção das comunidades por onde passaram?

Dr. Assis – Fomos sempre muito bem recebidos, tanto pelos nossos contatos, quanto pelas comunidades de entorno: em praticamente todos locais. Em Lima Duarte, ficamos hospedados na casa de um senhor chamado Agustinho Riolino, que tem parentes em Itajubá; em Camanducaia fomos recebidos pelo Dr. Dalciso. Foram essas amizades que nós fomos identificando em cada local em que faríamos uma parada, e foram abrindo as oportunidades para a gente ir viabilizando o projeto com economia em custos, evitando gastos com hospedagem e alimentação.

 

IN – Ocorreu alguma situação inusitada durante o percurso?

Dr. Assis – Tudo que aconteceu foi mais ou menos dentro do esperado. Os defeitos de bicicletas: tivemos cinco pneus furados, uma quebra de suspensão – na minha bicicleta. Tivemos também os tombos, mas felizmente todos de pouquíssimas conseqüências físicas e danos simples em termos de bicicleta. Mas o fato marcante, que não esperávamos realmente, foi não conseguir atravessar a Serra da Mantiqueira para chegar na cidade de Maromba, no Estado do Rio de Janeiro. Na realidade, chegamos no município, mas não conseguimos passar porque a estrada estava interditada devido à quebra de barreira; e o Exército estava providenciando a limpeza do local, fazendo inclusive implosão de algumas pedras. Ficamos assim impedidos de avançar no Estado do Rio de Janeiro até o município de Visconde de Mauá. Tivemos que voltar para Itamonte; e na volta, onde foi um dos piores trajetos devido ao relevo, perdemos o contato com a nossa caminhonete de apoio. Ficamos mais ou menos em torno de umas duas horas, já à noite, sem contato e sem saber exatamente para onde deveríamos ir. Felizmente conseguimos resolver essa situação, alcançamos uma pousada já nas montanhas de Itamonte, onde passamos a noite. Essa foi a situação em que a gente chegou a temer um pouco pela dificuldade de passar a noite sem a devida proteção.

 

IN – O que chama mais atenção na Serra da Mantiqueira?

Dr. Assis – É exatamente a beleza da Serra da Mantiqueira. O potencial turístico: tudo que nós vemos em pontos turísticos do Brasil, como Serra Gaúcha, Serra Catarinense, temos tudo isso na região da Serra da Mantiqueira, com baixíssima exploração turística. Entretanto há um lado negativo, que é a devastação muitas vezes desnecessária de grandes áreas de florestas. Fala-se muito em devastação da Amazônia, mas a devastação da Serra da Mantiqueira é muito acentuada. Seria talvez o trabalho mais importante fortalecer a Área de Proteção Ambiental (APA) da Mantiqueira a nível público. Uma conscientização do poder público para que haja a maior conservação das nossas florestas e conseqüentemente da preservação das nascentes da Serra da Mantiqueira.

 

IN – O que é importante registrar dessa experiência na Serra da Mantiqueira?

Dr. Assis – Gostaria de registrar que realmente a música da Mantiqueira é o som das cachoeiras, que a preservação das águas passa por um processo de reflorestamento e conservação do que existe atualmente. E um destaque também bastante significativo para a simplicidade das pessoas que vivem nessas cidades próximas de nós, em toda Serra da Mantiqueira.

 

IN – Como foi feita a preparação dos atletas que percorreram a Serra da Mantiqueira?

Dr. Rodrigo – Nesse caso, especificamente dessa aventura dos 1.000 quilômetros na Serra da Mantiqueira a minha função não foi em qualquer momento a parte da preparação física. Ao invés dos atletas me procurarem num período prévio à preparação física, foram me procurar faltando um mês para os 1.000 quilômetros acontecerem. O que dá para fazer nesse momento? Só existe a possibilidade da gente pensar em uma coisa: avaliar os atletas para ver se todos estão em perfeito estado; em condições de entrar em uma prova extenuante como esta. Isso é exigir de uma forma exacerbada de todos os componentes fisiológicos do organismo. Então eu não fiz uma fase preparatória para a preparação física: isso ficou por conta deles. O que realmente esteve dentro das minhas possibilidades de ser feito foi levá-los para São Paulo e rastreei todos atletas, de cabo a rabo.

 

IN – Quais os exames e testes realizados?

Dr. Rodrigo – Desde exames dos mais simples, como uma análise laboratorial de hemograma, perfil lipídico. Fiz toda uma dosagem hormonal de nível circulante de testosterona, de GH, que é o famoso hormônio do crescimento, de hormônios tireoidianos para ver se tudo estava bem, nos limites considerados normais. E, além disso, alguns outros exames mais elaborados, como ecocardiograma (para avaliar a estrutura do coração) e, além disso, o teste de ergoespirometria, feito normalmente em uma esteira com uma máscara que faz a mensuração do consumo de oxigênio e produção de CO2. Este teste serve para avaliar a capacidade cardiorrespiratória do atleta. Além disso, temos condição de durante o teste verificar se o coração do atleta – em repouso e quando ele é submetido a um exercício físico até a exaustão – se comporta normalmente. Muitas anormalidades em termos de ritmicidade cardíaca só se manifestam numa determinada intensidade do exercício, por isso a importância do teste. Toda essa bateria de exames que foi feita em um protocolo que montei especificamente para esses atletas. A partir desse momento, eles terão um acompanhamento mais de perto desses componentes fisiológicos e da preparação física também. É um trabalho conjunto.


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