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ENTREVISTA
Orlando Mohallem
03/02/2010

Empresário amante dos chamados esportes radicais e da contemplação e conservação da natureza, Orlando Mohallem é proprietário de uma área que se tornou a primeira RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) de Itajubá. Itajubense, casado, 34 anos, Orlando, que também é presidente do Clube Montês Itajubense, fala nesta entrevista sobre o projeto que pretende implantar na reserva, a estrutura que o local já possui, além da atividade que desenvolve na área de turismo de aventura. Orlando recebe montanhistas e escaladores de várias partes do país, que vêm a Itajubá conhecer algumas das pedras mais famosas da região e da nossa zona rural. Entre elas, estão as pedras da Piedade, Vermelha, Pico dos Marins, entre outras, e a Pedra Aguda, onde está localizada a RPPN.

O senhor é proprietário de uma área que está se tornando reserva natural...

Nós conseguimos comprar uma propriedade no bairro do Anhumas, no pé de uma montanha, a mais famosa de Itajubá. E quem pratica ecoturismo na região conhece e vai muito para a Pedra Aguda. Com o tempo, conseguimos devagarzinho ir desenvolvendo algum trabalho, com cunho para turismo, preparando a propriedade para o turismo. Fizemos um abrigo, há dois anos, com platôs para acampamento, desenvolvemos duas trilhas ecológicas, além da trilha principal que ia para o cume... desenvolvemos duas trilhas legais: uma vai para um bosque bem bonito, e a outra vai para uma parede de escalada, com 160m. E, dentro disso, estamos trabalhando na recuperação de uma nascente principal, plantamos muitas árvores, no período de um ano e meio plantamos 3.000 mudas, também uma floresta de eucaliptos, porque pretendemos fazer arborismo, e etc.

 

Como foi o processo para obter o recurso para a RPPN?

Pintou uma oportunidade com a SOS Mata Atlântica. A ONG (Organização Não Governamental) dá um incentivo para a criação de reservas particulares. Então, ela tem um capital e o repassa para as propriedades que tenham interesse em criar reservas particulares. Dentro da lei ambiental brasileira, existem as unidades de conservação, os parques nacionais, têm unidades de conservação com parque estadual, tudo com cunho de preservação. Aqui, em Itajubá, há uma unidade de conservação, que é a reserva municipal biológica da Serra dos Toledos, de onde vêm 40% da nossa água, mas é de uso restrito. E, em 2000, foi estipulado pelo governo criar a Reserva Particular do Patrimônio Natural, que é RPPN, que faz com que o governo enxergue a propriedade como uma área de recuperação, com o intuito de formar corredores ecológicos, para fazer com que ali se preservem espécies, tanto da fauna quanto da flora. Além desse aumento da biodiversidade, tem ainda o cunho turístico. Então, a gente conseguiu da SOS Mata Atlântica uma verba para fazer toda a medição topográfica, a divisão da área que vai ser a RPPN, porque ali dentro do nosso sítio vai ter a área que vai ser reserva e a área onde eu vou poder explorar madeira, por exemplo, vou poder ter a minha casinha, vou poder morar se eu quiser.

 

Que tamanho tem esta área?

Ali tem 37 hectares, dão 14 alqueires, mais ou menos. Então é uma área, relativamente grande.

 

E conta o morro também?

Tudo. Então, tem a área de pedra mesmo, que é nossa, e dá o que mais ou menos cinco alqueires mais ou menos só de pedra. E é onde tem escalada, com duas rotas de escalada. E o resto, toda encosta, toda parte de morro ali vai ser preservada. E isso para Itajubá é muito bom, porque vai ser a primeira propriedade que vai se transformar em reserva particular com cunho para turismo. Itajubá hoje, até então, estamos trabalhando com turismo, e na verdade estamos estabelecidos em Itajubá, mas praticamos o turismo mais nas redondezas, na região de Itajubá. Então, dentro de Itajubá mesmo, não tem nada que interesse às pessoas de fora conhecer. Apesar de termos um horto bem bacana, não tem nenhuma infraestrutura, nenhum plano de gestão de como se deve administrar o horto; não existe ali ainda, sabe? E não tem uma pessoa com conhecimento, um profissional que faça um atrativo legal, então não tem um plano de gestão atual para o horto. E é o principal ponto turístico de Itajubá, só que é uma área pequena, existe uma entrada... a portaria não é legal, o lugar é escondido...

 

Como o senhor defende que deva ser explorado o horto?

Primeiro, mudar a entrada do horto. Poderia ser pelo Agrícola, pela escola. Agora, eles fizeram a entrada por trás, não tem nada a ver. Agora, imagine uma entrada pela escola. Aquele predião bonito, com um centro de informação ali, e já está na reta da BR-459, para quem está chegando pela cidade já estar no horto. Eu já falei várias vezes, mas ninguém escuta. Mas eu até entendo, porque são muitos problemas pra administrar. Só que está na cara de todo mundo! Tem muita coisa legal que pode ser feita, assim como no Juru, Gerivá, Serra dos Toledos... Tanto lugares legais que podem ser explorados.

 

Com a implantação desta RPPN na Pedra Aguda, o senhor acredita que o turismo no bairro Anhumas vai ser fomentado como um todo?

Com a transformação de reserva, a Pedra Aguda, o bairro do Anhumas... o acesso para a Pedra Aguda é muito legal. Então, a comunidade itajubense começa a voltar os olhos para aquele bairro, que é muito legal; tem a Pedra Vermelha que é muito bacana, tem circuitos de mountain bike, na região da Anhumas, Berta, Estância. E além da Pedra Vermelha tem a cachoeirinha, a cachoeirinha da Estância; tem o mirante das torres de televisão, que muita gente vai fazer o mountain bike... E mantemos agora uma travessia de caminhada, que percorre todo o topo de serra. A gente começa a caminhada com mochila de Itajubá, e consegue percorrer, o Morro das Antenas, o Morro Grande, a Pirâmide, até chegar à Pedra Aguda, tudo por crista. É uma caminhada de montanhismo que a gente abriu há anos. E é um atrativo.

 

De quanto tempo é este percurso?

O percurso é difícil mensurar, mas a caminhada dura em torno de quatro a cinco horas. É uma caminhada até que puxada, mas tem rotas de fuga. No Pico do Galo, você cansou ou alguma coisa assim, pode sair no bairro do Anhumas. Então, quer dizer, toda serra está dentro do município, dentro da área urbana praticamente; é muito legal.

 

E a Gruta do Quilombo... Como é?

Numa parte do Pico do Galo, antes da Pedra Aguda, tem um sítio arqueológico: é a Gruta do Quilombo. Essa gruta foi utilizada para recursos dos escravos que habitavam o Quilombo da Berta, então tem cunho histórico também. E é uma toca grande. E quando estamos levando as pessoas para a Pedra Aguda, paramos nesse lugar, fazemos um lanche... No ano passado, levamos quatro turmas de colégio, fizemos uma parada com piquenique, colônia de férias e as pessoas adoram. Tem um mirante depois que passa dessa gruta, que dá vista para Itajubá... A caminhada para o pico tem um ambiente de floresta, você escuta macaco... Vale a pena.

 

Tem como chegar lá em cima sem precisa escalar?

A principal rota é por caminhada. Mas para quem gosta de escalada tem como subir e chegar ao cume escalando. E o acesso mais frequentado é pela trilha.

 

Dá pra chegar no topo?

Dá e é muito bacana. E então hoje conseguimos esta contemplação, que é difícil de conseguir, esse incentivo da SOS. E após a implantação da reserva vem os trabalhos maiores, que é a criação de planos de manejo, com cunho de recuperação ou ecoturístico, por exemplo. Meu plano de manejo vai ser de implantar visitação dentro do sítio. Com o fundo da reserva que a SOS Mata Atlântica também disponibiliza a gente desenvolve guaritas, trilhas suspensas em madeira, a sinalização, enfim, dentro desse intuito. Acho que Itajubá ganha com isso, a pessoa chega nos hotéis, o hotel pode oferecer uma visita a uma reserva, isso aí tem interesse, é um atrativo.

 

De Itajubá, o único local que está no inventário turístico é o Paeda, mas que está fechado. A cidade tem vários locais lindos, mas que foi a natureza que fez. Ou seja, precisariam receber infraestrutura para poderem ter infraestrutura...

Eu ajudei a Prefeitura a desenvolver um inventário natural da cidade. Tudo que eu tenho catalogado passei para eles. Ela (Bruna Tiengo, diretora de Turismo) somou a parte natural no inventário turístico. Mas cada local precisaria de uma estrutura, desde banheiro, guarita, placas... E não é o proprietário que tem que fazer isto. Eu acredito que ele tem que só autorizar e ganhar com a entrada no local. A Prefeitura deveria fazer este investimento. A Secretaria de Turismo deveria utilizar os pontos que têm atrativos e ajudar com infraestrutura. Até para preparar o local para não ter impactos, arrumar trilhas. A Prefeitura ganhou uma verba do Ministério do Turismo para arrumar a entrada do horto. Mas por que não a próxima verba não ser destinada para essas outras coisas? A cidade toda ganharia com isto. Temos cachoeiras, a Serra dos Toledos... lugares maravilhosos que precisam de investimento. A gente tem tudo, mas falta gestão.


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