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Editorial 1167: O herói fabricado

  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes por todos nós desde a mais tenra infância, quando nos ensinavam a história do Brasil nas escolinhas primárias – hoje, Ensino Fundamental I – é o único brasileiro que tem um feriado em sua homenagem. Executado com a pena de morte na forca, depois de um processo que durou três anos, conhecido como a Devassa, por sua participação e confessada liderança num movimento que historiadores denominam Inconfidência Mineira, ou Conjuração Mineira, como ainda querem alguns, em 1792, Tiradentes teve seu nome esquecido por 98 anos, entre a data de seu enforcamento e o primeiro ano da República (1890), até que, necessitando criar um herói nacional para substituir na cabeça do povão a figura querida de D. Pedro II, expulso do Brasil no ano anterior pelos golpistas democratas e antiescravagistas que se uniram a fazendeiros escravagistas insatisfeitos com a abolição da escravatura no Brasil, sem que tivessem recebido indenização do Estado, lembraram-se do revolucionário do final do século anterior, mandaram pintá-lo em quadros como se fosse Jesus Cristo – de forte apelo emocional popular num país de sociedade eminentemente católica – e criaram o herói nacional, porque o comandante militar do golpe contra o imperador deposto não servia, porque, sabidamente, seria amigo (da onça) de D. Pedro II, e levou adiante um movimento que visava, em princípio, apenas, derrubar o Ministério e não a Monarquia, porque alguém fora até sua casa, onde já se encontrava deitado em sua cama, para mentir-lhe, dizendo que o imperador iria nomear, para substituir o ministro chefe do gabinete deposto, seu maior inimigo no Rio Grande do Sul, o homem que se casara com uma sua antiga paixão.

Tiradentes, na verdade, hoje se sabe – ou sempre se soube – não pretendia, com seus companheiros, a independência do Brasil como um todo, até porque não tinham nenhuma condição prática de conseguir chegar a tal objetivo num país do tamanho do Brasil, com o que dispunham no final do século XVIII, mas a separação, de Portugal, apenas de Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde esperavam obter o apoio que não tiveram, e ainda contaram com a traição de Joaquim Silvério dos Reis, o primeiro delator premiado da nossa história, e não por questões de ideologia política, mas porque a coroa portuguesa, necessitando demais de obter recursos econômicos para reconstruir Lisboa, devastada pelo grande incêndio, apertou o certo nos impostos, cobrando cada vez mais e ameaçando, com a tal Derrama, colocar nos trilhos os sonegadores. Este o motivo da revolta para a qual Tiradentes chamou a si a liderança perante o tribunal que o julgou. Mas, em 1890, não havia ninguém que se pudesse elevar ao pedestal de herói nacional, então escavaram a história até encontrar Tiradentes.

Há quase 50 anos, em agosto de 1977, o sargento do Exército, Silvio Delmar Hollenbach, jogou-se no poço que abrigava ariranhas, animal violento, no zoológico de Brasília, para salvar um menino de 13 anos que, acidentalmente, caíra naquele poço e estava sendo atacado pelas feras. O menino foi salvo, mas o sargento faleceu em razão dos ferimentos sofridos, mas fora imortalizado numa crônica do jornalista Lourenço Diaféria no jornal Folha de São Paulo, intitulada “Herói. Morto. Nós.”, que lhe rendeu um processo na Justiça Militar, porque o Exército sentiu-se ofendido quando o jornalista afirmou que herói era aquele sargento, e não a estátua de Duque de Caxias, em São Paulo, que somente servia de poleiro para os pombos e em cujo pedestal mendigos urinavam. O sargento Silvio, certamente, não se jogou no poço das feras com intenções suicidas, nem sequer passou-lhe pela cabeça que viesse a sofrer ferimentos tão graves que pudessem leva-lo à morte. Apenas pensou em salvar aquele menino, que mal tinha começado sua vida. Diaféria tinha razão em seu artigo, tanto que foi absolvido pela própria Justiça Militar. Teria razão, hoje, se escrevesse o mesmo artigo, apenas focando numa estátua que fica na praça principal de Ouro Preto e na frente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

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