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Editorial 1157: Orelha – a nova cortina de fumaça

Ninguém, absolutamente ninguém, que tenha um mínimo de decência, um mínimo de senso humano e de justiça, pode ficar alheio ao brutal espancamento, com resultado morte, do cachorro “comunitário” Orelha, em Florianópolis. Cão ou gato comunitário é a designação bonitinha que inventaram para simpáticos animais de rua, criados na rua, que terminam por serem alimentados por pessoas do bairro, ou que frequentam a área onde eles se “estabelecem”. Os jovens que fizeram o que fizeram, sem dúvida, devem ser punidos com rigor, assim como, segundo a imprensa, seus pais e um tio que andaram ameaçando quem denunciou o crime, porque, sim, maltratar um animal, ainda mais até sua morte, é crime tipificado na lei penal 14.064/20, que prevê penas de dois a cinco anos de reclusão, a forma mais rigorosa de cumprimento de pena. Mas isso vale para adultos. Adolescentes poderão, no máximo, serem encaminhados a instituições de reeducação (as antigas Febem da vida), por até três anos, o que, convenhamos, não é pouco.

Se um adulto houvesse feito o que aqueles adolescentes fizeram, certamente não seria condenado à pena máxima (cinco anos), e, se a pena fosse de até quatro anos, poderia, logo de cara, começar a cumprir no regime aberto ou mesmo ser a pena substituída por outras medidas, o que, provavelmente, vai acontecer com os adolescentes, se é que eles vão retornar dos Estados Unidos, porque, depois do crime, teriam ido visitar o Mickey. Certamente que Pateta deve ter se escondido, assim que desceram do avião.

Mas Orelha, como muitos outros casos no país, acabou por, involuntariamente, servir a interesses políticos. Artistas e potenciais candidatos a cargos públicos no Congresso, nas Assembleias e até, daqui a três anos, a Vereança, deram-se os braços em enormes passeatas e concentrações de protesto pelas principais capitais do país. Para o governo, com seus escândalos pipocando minuto a minuto, o assassinato brutal de Orelha veio como mais uma cortina de fumaça para que a imprensa deixasse, pelo menos um pouco, de falar nas ligações de políticos, governantes e até quem governa sem ser governante, com a roubalheira em cima dos velhinhos, a roubalheira sobre investidores de um banco, os resorts com cassino interno (proibido por lei) que pertenceria ao amigo do amigo do pai, como o sítio de um amigo pertenceu ao amigo do tal pai.

Além das passeatas, especialistas de gabinete e até de botequim, aproveitam para discutir a redução da idade penal, para 16, 14 e até 12 anos, como se isso resolvesse o problema da criminalidade juvenil no Brasil, já que não resolveu em nenhum lugar do mundo. Mas o coitado do Orelha, que tudo o que queria era passar pela praia de Florianópolis livre, leve e solto, contando com a solidariedade da comunidade local, acabou por ser assassinato por jovens sem um mínimo de sensibilidade humana, e por servir de cortina de fumaça para corruptos em geral.

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