Editorial 1184: Sem fonte não há jornalismo, e sem jornalismo impera a ditadura
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Judith Miller era uma jornalista do The New York Times, um dos maiores e mais conhecidos jornais norte-americanos. Sua história foi a inspiração do filme “As Faces da Verdade” (título que recebeu por aqui), lançado em 2008. Judith passou cerca de 5 anos presa, porque recusou-se, terminantemente, a revelar à Justiça do país politicamente mais democrático do mundo a fonte da notícia que divulgara acerca de uma operação da CIA num país da América Latina, revelando o nome do agente secreto, o que provocara o assassinato do sujeito. O sigilo da fonte é instrumento constitucional garantido aos jornalistas, o qual fica, pessoalmente, responsável pela divulgação da notícia, caso os fatos revelados não sejam verdadeiros, ou seja, um instrumento absolutamente democrático, por um lado, mas que impõe responsabilidades, por outro.
Sem fonte, não há jornalismo, e, sem jornalismo livre, impera a ditadura. Não houvesse o sigilo da fonte, não haveria a descoberta do que ficou conhecido como escândalo Watergate, na década de 1970, que levou o então presidente norte-americano a renunciar para não ser cassado, e que revelou a história da invasão, por membros do partido Republicano, a um escritório do partido Democrata, em 1972, com o conhecimento do presidente Richard Nixon, por dois jornalistas do Washington Post, caso que também virou filme (Todos os Homens do Presidente).
No caso daquela jornalista do New York Times, foi presa por não revelar sua fonte à Justiça, porque a Suprema Corte dos Estados Unidos havia decidido que, quando a divulgação de uma notícia envolve segurança nacional, o jornalista está obrigado a revelar sua fonte, mesmo que a notícia seja verdadeira. Mas somente se o caso envolver segurança nacional.
O Brasil está, há tempos, entrando numa seara muito perigosa. Informar ao distinto público que paga pelos carros oficiais, combustível, manutenção e motoristas, postos à disposição de autoridades, mas que, sem base legal para tanto, estariam sendo utilizados por parentes da autoridade para ir à praia, não compromete, em nada, a segurança nacional de qualquer país que queira se apresentar ao mundo como democrático. Se for mentira, que se processe o jornalista, e, se este o quiser, reverterá o processo contra quem lhe passara a informação falsa. Se for verdade, o público tem o direito de saber que seu dinheiro está sendo mal direcionado.
Não tem nada de segurança nacional, no caso, nem lá nos Estados Unidos, nem aqui no Brasil. Talvez na Coreia do Norte, na China, Cuba ou Rússia, para não falar nas ditaduras africanas. Punir o jornalista, investigar e punir sua fonte pode ser ato chamado de tudo, menos de minimamente democrático.



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