Editorial 1194: Surpresa, para quem?
O que se passou no último domingo, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi reconduzido à Presidência da República, somente deve ter sido uma enorme surpresa para Miriam Leitão, Daniela Lima, Andreia Sadi, Reinaldo Azevedo e até para Janones, Janja e o próprio Lula. Entre a noite de sexta-feira e as 17h02 do domingo, o que se via em todos eles era o semblante da derrota, verdadeira jogada de toalha. Naquele segundo minuto após o que deveria ser o encerramento da votação, tudo mudou. E vimos todas as pesquisas, até o famoso Datafolha e a Quaest, errarem estupidamente, o que, aliás, não é novidade.
Passada a madrugada, nas primeiras horas da manhã de segunda-feira e ao longo desses dois últimos dias, a ficha foi caindo, e vimos que, para os demais atores do espectro político nacional, na verdade, não houve — nem deveria ter havido — qualquer surpresa.
Os mais afoitos, como sempre, colocam a culpa no eleitorado do Norte e do Nordeste, que veem como ignorantes, vagabundos e passa-fome, que vivem às custas de quem trabalha no Centro-Oeste, Sudeste e Sul, que fornecem os impostos para custear os benefícios sociais, Bolsa Família à frente. Não é assim. Nordestinos e nortistas não são vagabundos, embora a maioria, de fato, tenha cultura geral menor que a população mais abaixo da linha do Equador. Há vagabundos, sim, como há vagabundos também nas demais regiões do país.
A população da Bahia, do Piauí, do Pará, do Amazonas, do Ceará e respectivas cidades do interior é, em sua extrema maioria, gente trabalhadora, que vai às ruas buscar seu sustento e o da família no dia a dia, faça sol ou chuva, enfrentando empregos que pagam mal ou subempregos. Mas, historicamente, é gente que traz no seu DNA o sofrimento pelo abandono governamental que sempre sofreu, desde que a República foi instalada no país e até mesmo antes disso.
No Piauí, há cidades onde mais de 80% dos seus habitantes vivem dos programas sociais (Bolsa Família, Vale-Gás e até marmitas ofertadas por programas governamentais). A maioria das pequenas cidades da Bahia também possui grande parte da população vivendo de tais programas, inclusive das marmitas ofertadas por meio dos Cras (Centros de Referência de Assistência Social), programa quase equivalente aos restaurantes populares que conhecemos aqui no Sudeste, inclusive em Itajubá.
Era evidente que o esforço de Nikolas Ferreira, fazendo um vídeo em que mostra nordestinos insatisfeitos com as promessas não cumpridas pelo governo nesses quatro anos, não seria o suficiente para trazer votos para Flávio Bolsonaro, até porque, infelizmente, sem o saber, Nikolas certamente prejudicou, perante os prefeitos daquelas pequenas cidades que apoiaram a recondução de Lula ao Planalto, aquelas pessoas que se deixaram filmar falando mal do “padrinho”.
Se a eleição foi honesta, se houve dedo na balança, como muita gente diz ter havido em 2022, na verdade, sequer importa agora. Não haverá volta. O dólar, na segunda-feira, subiu 10% contra o real, as bolsas de valores despencaram cerca de 20%, desvalorizando as ações das empresas. Não se sabe o que ocorrerá no futuro, mas que o governo vai continuar fazendo, pelos próximos quatro anos, o que veio fazendo nos últimos quatro, não tenham dúvidas. Nisso, não haverá qualquer surpresa.



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