Editorial 1195: Vencedor moral e governo paralelo não existem
Quando, em 1978, a ditadura argentina convenceu a seleção do Peru a perder um jogo pelo exato número de gols que precisaria perder para tirar o Brasil das finais, e terminou a seleção portenha por sagrar-se campeã do mundo da Copa daquele ano, a torcida, os jogadores, os técnicos e até os cartolas do nosso futebol passaram a afirmar que seríamos “campeões morais”, embora a taça estivesse em poder de Mario Kempes, o artilheiro argentino (Maradona, com 17 anos, não chegou a jogar na seleção daquele ano).
Após as eleições de 1989, quando Collor de Mello venceu nas urnas Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência do Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT) afirmou que instalaria um “governo paralelo”, chegando até mesmo a “nomear” seus ministros, sob a liderança de Lula.
Logo depois das eleições de 2018 na Venezuela, o oposicionista Juan Guaidó, presidente da Assembleia Legislativa do país (o Congresso de lá), declarou que as eleições que levaram Maduro a mais um mandato teriam sido fraudadas, baixou um ato legislativo declarando vaga a Presidência da República em janeiro de 2019 e autoproclamou-se presidente interino do país, apesar de a caneta que assinava os cheques dos pagamentos do governo, inclusive os salários dos deputados da Assembleia, estar nas mãos de Maduro. Guaidó, aliás, saiu pelo mundo, sendo recebido até pelo então presidente brasileiro Jair Bolsonaro, com honras de presidente do país vizinho.
Hoje, Guaidó ainda está pelo mundo, exilado, apesar de Maduro não estar mais no poder, mas preso nos Estados Unidos, embora seja a sua turma quem continua a governar a Venezuela.
Na semana passada, Flávio Bolsonaro, que disputou a Presidência brasileira no dia 25 de outubro como favorito e viu Lula ser mantido na chefia do governo e do Estado pelos próximos quatro anos, a partir de janeiro do ano que vem, segundo a apuração dos votos dados pelos brasileiros, mudou-se com a família para os Estados Unidos, secretamente, depois que um ministro do STF mandou que entregasse seus passaportes, tentando impedi-lo de sair do país, para, possivelmente, vir a decretar sua prisão preventiva no âmbito de investigações que envolvem um amigo do ex-candidato, embora ainda senador da República, pelo menos até fevereiro do ano que vem.
Chegando à Flórida, escreveu um longo texto, dizendo-se “o legítimo presidente do Brasil”, algo tão ridículo quanto a declaração de campeã moral da Seleção de Futebol de 1978, do “governo paralelo” de Lula em 1990 ou da “presidência interina” de Guaidó, na Venezuela, em 2019. Caindo na real, horas depois, trocou a expressão “presidente legítimo” por “líder legítimo dos brasileiros”. Nem isso Flávio o é, mesmo com seus quase 60 milhões de votos oficialmente obtidos no pleito eleitoral. Poderá ser o líder da oposição, caso consiga manter a liderança no exílio, mas o verdadeiro líder nacional, hoje na oposição, ainda que preso, é seu pai, Jair Bolsonaro, sem o qual teria obtido, no máximo, uma excelente votação para permanecer no Senado.
Não interessa mais o que ocorreu de estranho naquele domingo, com o PT da Bahia adesivando, na calada da noite, nas garagens dos ônibus da cidade, sua estrela com o número 13, evitando a saída das garagens, para argumentar, mais tarde, caso Lula não fosse reconduzido ao Planalto, que as eleições deveriam ser anuladas pela ausência do transporte de eleitores determinado pela lei, nem a prorrogação, de fato estranha, do período de votação, proferida na última hora por um ministro do STF (e não do TSE), que fora, no passado, advogado pessoal do próprio Lula e fora por ele nomeado para a Corte Suprema brasileira, até porque a prorrogação válida para todo o país não fora pedida pelo PT, que se limitou a pedi-la para Salvador e cidades da sua área metropolitana, mas fora pedida pela liderança do próprio PL, partido de Flávio Bolsonaro, que o ministro, com um largo sorriso de quem pensa “fizeram besteira”, atendeu.



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